
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
só, a tarde
sentar no sofá pro café enquanto você ainda dorme e o gato passando entre minhas pernas. ele vai pular em meu rosto a qualquer momento e enfiar suas garras em minhas pálpebras até rasgá-las.
vou embora com o olho pingando vermelho. todos os carros na rua chegam a beliscar a calçada. basta um para me atropelar e jogar no asfalto para que eu me debata feito peixe no seco.
corro ladeira abaixo para escapar e sinto que meu joelho a qualquer instante ode partir ao meio. agonia de precisar estalar cada articulação do corpo enquanto tudo aprece estar esticado ao máximo: mais um atrito entre os ossos e todos eles se esfarelam.
chego ao ponto de ônibus e ao dar o sinal quase perco meu braço apontado. só cabe mais um passageiro. a porta atrás de mim não consegue se fechar. o motorista acelera e, pela inércia, tombo para fora e bato a nuca na guia. a viagem segue para o próximo ponto.
acordo sozinho. agora chove e faz frio. o cabelo está colado ao pescoço por um melado seco, vermelho.
tento ir a pé. cada um que cruza pelo meu caminho carrega um revólver na cintura que pode ser puxado AGORA! abaixo quando passo por alguém, pois sei que o tiro pode vir por trás e acabar com meus miolos. de cabeça a aberta, o vento refresca. o cérebro pula. o derrame está chegando. eu sei. um cérebro que se levanta no crânio e lá de cima deixa seu peso agir. o som da batida cerebral sai estourando os dois ouvidos.
prefiro pegar o metrô. na plataforma, último vagão, logo depois da faixa amarela, uma massa de passageiros apressados a espera atrás de mim pelo próximo trem. sei que eles só o estão esperando para que me empurrem e eu abrace o alumínio. as portas se abrem e me empurram até que minha cara se espreme no vidro oposto. quando me largam, uma senhora fica com o rosto na altura de meu peito. encaro o topo de seus cabelos brancos. dali consigo ver suas duas mãos inquietas. elas agarrarão minha barba na próxima estação.
a energia elétrica acaba e somos enfileirados ao longo do túnel. esfolo todo meu braço esquerdo. não consigo dar um passo sem que o próximo da fila tente passar à minha frente me empurrando para que tenha mais espaço para seu próximo passo. sou o último da fila. a estação vai fechar sem que eu consiga chegar para passar as catracas. chego no último aviso de encerramento do horário comercial. para conseguir sair a tempo preciso passar pela fileira de guardas e pular as catracas. os guardas alisam seus cassetetes, as catracas de ferro parecem arames farpados. os guardas abrem espaço para meu impulso. corro. quando meus pés saem do chão e os joelhos se juntam ao peito, sinto o vento de um golpe dado no ar logo atrás de mim. os pés descem antes de ultrapassarem o bloqueio. tropeço no ar e vou de cara e peito para o chão sendo lavado. escorrego cheio de traumas até que consigo sair da estação.
agora só falta a escadaria da rua de casa. receio descê-la. posso escorregar. tropeçar. não tem corrimão. degraus furiosos. resolvo pular todos os lances de uma só vez. consigo. aterriso com os dois pés paralelos. os tornozelos se torcem. fico ajoelhado enquanto eles incham em seu roxo hemorrágico.
arrasto-me como posso até a porta de casa.
você está lá. linda. desarrumada. cara de concentrada e um sorriso sai da sua cara assustado quando me vê. solta o livro no sofá e corre pra me abraçar.
seu abraço apertado fecha minhas feridas. seu beijo demorado numa boca sangrenta. me leva pra tomarmos nosso banho juntos, como prometido pela manhã. não tenho medo de me afogar. quero nadar contigo.
deitamos na cama ainda molhados e os corpos desarrumam um lençol que cobria nossa cama de vontade.
o gato passa pela beira da cama e nos olha. mia para competir com seus gemidos. ele não vai pular em minhas costas.
amanhã, quando eu a deixar dormindo e sair da casa, morrerei assassinado, atropelado e torturado por essa saudade hiperbólica das tardes sem você.
domingo, 22 de novembro de 2009
jantar sobre cadeiras
Sentou-se a minha frente enquanto eu, de smoking, jantava em um gigantesco salão de paredes e chão de azulejos brancos com fortes lâmpadas incandescentes por todo o teto. Mulheres de saias até o joelho me acompanhavam. Usavam salto alto que delineava o que mostravam de suas pernas. Camisas apertadas e um lenço vermelho amarrado ao pescoço. Os cabelos impecáveis como a maquiagem que pintava os rostos a se uniformizarem em traços bonitos.
Todos o adoravam por ali. Ele tinha um ar bobo. Um sorriso fácil, sincero. Era um homem pequeno, infantil. Os braços soltos pelo corpo balançavam desritmados em seu terno incompleto: camisa branca surrada e, em baixo, uma velha calça social preta cai em um sapato de couro desbotado.
Os que entravam o cumprimentavam. Ele respondia com o tal sorriso cheio de comida escapando por entre os dentes. Se envergonhava e abaixava a cabeça para o prato enquanto o olho desviava um pouco para o meu rosto, como se devesse algo a mim. Tentando manter a postura ereta, ele tomava um pouco de seu vinho para jogar a comida pra dentro sem precisar mastigar e assim deixar sua boca limpa daquela comida.
Fiava encantado com as mulheres aeromoças. Elas o olhavam buscando aquele sorriso que em mim nunca encontravam. Deixei minha taça virar e molhar as pernas daquele homem. Todas se apressaram a pegar guardanapos para enxugá-lo feito bebê que vomita o almoço e a mãe o socorre. Ele ria, ria bestado enquanto sentia aquelas mãos passando nas suas pernas e que esbarravam na sua ereção. Elas riam e cochichavam alto como quem vê um recém nascido em seu nu mais aberto. Todas sentaram ao mesmo tempo e voltaram ao almoço sincronizado entre elas, entre garfadas e goles em suas taças de vinho. Ele tentava se conter, mas deixava sair uma gargalhada solitária que era engolida pelo meu olho que o fazia abaixar a cabeça ao prato e ver por entre a toalha e o prato transparente, que ainda lembrava dos guardanapos o tocando. E outra gargalhada escapava mais fraca. Até que esse movimento se repetiu por diversas vezes até que não sobrou riso, nem guardanapo.
As mulheres acabaram o almoço ao mesmo tempo. Levantaram juntas. Apenas acenaram ao rapaz que mais uma vez sorriu com a boca repleta de comida. Ao tentar se despedir deixou cair pedaços de seu bife. Pegou o pedaço de carne da mesa e, enquanto o levava pelas mãos à boca, me acompanhou com um ar simpático que foi desarmado pelo meu enojamento. Cuspi em meu guardanapo ao limpar a boca. Muito para não jogar a gosma no meio da risada daquele homem que acharia graça em ser cuspido e até provaria um pouco do catarro.
Ficamos em silêncio.
Durante muito tempo.
O encarei sem desviar uma só vez o olhar para o resto das pessoas que saiam aos poucos do salão. Ele não conseguia. Seus olhos flutuavam. Esboçava uma tentativa de permanecer sério, de me imitar. Primeiro, colocou os braços em cima da mesa e tentou encaixar as mãos para promover a seriedade. Os dedos se entrelaçaram de maneira errada. Ele se prendeu nas próprias mãos. Aquela situação o agonizava. Fazia tanta força para desencaixar que seus dedos estralavam. Vi suor no seu rosto. A força aumentava junto com sua agonia. A cadeira colou em suas pernas e o esforço era tanto que ele pulava junto à cadeira numa tentativa frustrada de desenrolar suas mãos. Conseguiu. Imediatamente pousou suas as mãos da maneira que queria antes de se complicar com os próprios dedos. Nada parecia ter acontecido e passou a tentar meencarar com um ar sério. Seus olhos tentavam se moldar para ajudar na credibilidade daquela seriedade forjada. Quando achou uma boa posição para as sobrancelhas, uma gota daquele suor passou por entre o canto do olho e escorreu até o nariz. Essa coceira o fez desatar uma risada que preencheu todos os cantos do salão. Não tinha ritmo. Agudos e graves. Uma risada muito rápida. Diminuía o volume gradativamente. Abria a boca ao máximo que podia, como se fosse me engolir. Quando estava perto disso fechava a gargalhada e tentava se recuperar. Respirou fundo. Tossiu.
As mãos foram se balançar ao longo do seu corpo. Meus olhos não saiam da sua boca trêmula. Ele falava com alguém da cadeira ao lado que não estava por lá. Seus olhos viajavam em volta de si mesmo como se estivesse em meio a uma roda de homens em é. Ele ali, frágil, implorando por uma ajuda minha que não vinha nunca. Tentava convencer a todos bem baixinho, quase uma reza. As mãos estavam incontroladas num movimento mínimo que não saía de baixo da mesa. Entre uma palavra e outra, a risada e a testa frisada ainda estavam por lá. Quando se calou em um instante súbito, seu corpo acompanhou a ida dos homens. Respirou rápido por dois segundos e se refez. Era como se estivéssemos a sós mais uma vez e sua luta pela minha seriedade poderia retornar.
Tentou explicar o que ele havia acabado de passar com aqueles homens que o perseguiam. De uma maneira tão rápida que sua saliva transbordava e o fazia gaguejar enquanto tentava falar e engolir o cuspe ao mesmo tempo. Se perdeu na própria baba e aquilo o fez soltar uma gargalhada única e alta. Chupou tudo pra dentro de uma só vez e não falou mais nada sobre aquilo como se tivesse terminado toda a história e eu o tivesse compreendido.
Ele tentou pensar em alguma alternativa e nisso suas pernas começaram a pedalar em baixo da mesa. Encostaram em meus pés. Ele os sentiu e passou a acariciá-los com a sola de seus sapatos sem que percebesse no que estava acarinhando. Não percebeu que eu havia tirado meus sapatos. E o sapato dele ralava meu pé. O calor do atrito subiu. Desmanchei a pose de minhas pernas e ele se assustou com a saída de seu carinho. Olhou para baixo da mesa e engoliu seco ao ver meus pés descalços. Se recompôs e começou a tirar seus sapatos delicadamente sem que nenhuma parte a mais de seu corpo se movesse para tal esforço. Era como se tivéssemos feito um acordo do qual ele havia se esquecido.
Na minha tirania, tirei minha gravata borboleta olhando duramente em seus olhos e a coloquei entre nós dois. Ele sorriu extasiado, como se fossemos amigos de infância que descobrem juntos as regras de um novo jogo. Tentou achar a gravata em sua camisa e achou seus botões abertos, sem nenhum nó dado. Sofreu muito com aquilo. Vi sua decepção bater e um sorriso amarelo sair. Quase chorou por não ter uma gravata. Ele havia passado o meu estado de seriedade. Não conseguia medir a dose certa de que precisava para aquilo.
Com as mãos postas à mesa, tirei meu relógio e o pus ao lado ma mão esquerda. Ele repetiu o ato em sua mão direita. Sorriu com os dentes abertos para uma concordância de minha parte, mas não a encontrou. Seguimos nos desfazendo parte por parte de nosso vestuário. Sem que fosse necessário sairmos de nossas posições ou realizar muito esforço. Movimentos mínimos e exatos.
Enquanto essa cena se desenrolou, as mulheres aeromoças entraram novamente. Cada uma pegava uma cadeira ou uma mesa e as colocavam uma a uma a nossa volta, uma em cima da outra, em cima da mesa em que estávamos. Outras quebravam pratos e taças. Ele ria de uma maneira uniforme em seu som e volume por estar ficando nu diante de todas aquelas mulheres que não se importavam em ver dois homens se despindo simultaneamente. Ele tentava se desvencilhar dos móveis. Inútil.
Com o tempo não nos víamos mais. A risada dele deu lugar a um silêncio absoluto.
Éramos uma massa de cadeiras e mesas, rodeada por louças quebradas e vigiada por aeromoças.
O silêncio fez todo o seu movimento. As aeromoças não se comunicaram, nem mesmo se olharam e, sincronizadas, começaram a desfazer o bolo no mesmo ritmo em que o construíram. Outras varriam o chão e jogavam os cacos de vidro dentro dos latões que levaram quando foram embora.
Estávamos a sós.
Eu e ele, mais uma vez.
Agora, nus e cansados.
Olhos nos olhos.
Sérios.
domingo, 1 de novembro de 2009
barulho de gude
domingo, 25 de outubro de 2009
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
você dançando com os pés descalços no tapete da sala enquanto escrevo sua coreografia fechado em nosso quarto ou o vento que brincava no corredor
a janela assopra
a cama grita
